O lixo pode virar matéria-prima para a indústria da moda?

Lakshmi Poti

Por Lakshmi Poti

No dia a dia do meu trabalho como gerente sênior do Programa Materiais na Laudes Foundation, escuto com frequência essa pergunta de pessoas que estão buscando opções de matérias-primas sustentáveis para a indústria da moda. 

Quando penso na resposta, percebo que todos os ingredientes para utilizar resíduos como matéria-prima parecem já existir. 

Muitas marcas estão definindo objetivos ambiciosos para se distanciarem do uso de materiais não sustentáveis. Algumas alternativas já podem ser vistas: inovações que transformam desde resíduos alimentares à resíduos têxteis em fibras. Além disso, na Laudes Foundation, também temos acompanhado o desenvolvimento dessas inovações através do trabalho de nossos parceiros como a Fashion for Good e a Canopy.

Este parece ser o momento oportuno para que a indústria da moda coloque em prática uma mudança exponencial rumo à circularidade. 

Mas ainda há algo que me deixa bastante intrigada: com tantas possibilidades sendo exploradas, por que a indústria da moda continua a depender do petróleo ou da madeira de florestas ameaçadas?  

Na Laudes Foundation, decidimos descobrir o que realmente está impedindo o a implementação de inovações em larga escala e o que poderíamos fazer para encontrar alternativas rápidas para que ela ocorra. 

Durante a pesquisa, descobrimos que os materiais utilizados na moda estão intimamente ligados aos alimentos, combustíveis e sistemas florestais. Hoje, a confecção de nossas roupas ainda requer o uso de 111 milhões de toneladas métricas de fibra. Mais de 60% deste total é feito de petróleo, 7% de madeira (a maior parte vinda de florestas antigas) e 30% de fibras naturais, como o algodão cultivado nos mesmos campos que os nossos alimentos. 

Levando em conta esses números, fica clara a conexão da moda com as mudanças climáticas. No entanto, atualmente, as conversas em torno da redução das emissões de carbono que afetam o clima não chamam a atenção para este cenário. 

Compreendemos então que se nos propormos a resolver a moda de forma isolada, perdemos uma grande oportunidade, o problema vai muito além de uma única indústria. A verdadeira transição exigirá o apoio de inovações direcionadas, projetadas para fomentar sistemas naturais regenerativos que não prejudiquem as pessoas. A estratégia do Programa Materiais da Laudes Foundation está comprometida em apoiar essa transição.  

O aumento do uso da fibra produzida à base de resíduos agrícolas é um caminho que parece se encaixar perfeitamente dentro desta proposta. Com a crescente demanda por alimentos nos próximos anos, sabemos que haverá muito mais desperdício de colheita nos campos. Podemos, então, olhar para este excesso de resíduos como um recurso para a moda? 

O dimensionamento dessas alternativas exigirá grandes investimentos. A partir de várias estimativas da indústria, entendemos que serão necessários mais de 60 bilhões de dólares para apoiar os empreendedores e empreendedoras que lideram essas inovações e construir fábricas que possam processar os resíduos. 

Os investimentos provavelmente seguirão os sinais do mercado, portanto, as marcas precisam, primeiro, se comprometer com seus fabricantes e estes, por sua vez, precisam ter acesso a grandes e suficientes quantidades de matéria-prima de qualidade provenientes de resíduos agroindustriais. 

 

Dando os primeiros passos 

Para entender o potencial dos agro-resíduos a serem usados como matéria-prima para a moda, encomendamos uma pesquisa ao Sustainable Communities, Wageningen University & Research e ao World Resources Institute. O grupo de pesquisadores responsável pelo projeto descobriu culturas específicas que possuem quantidades suficientes de resíduos e delineou um plano inicial para estabelecer capacidades de processamento em larga escala que possam converter os resíduos agro-industriais em fibras têxteis. Agora que sabemos isso pode funcionar, a pergunta que precisamos nos fazer é: 

Como garantir que esse sistema se sustente no futuro? 

O uso de resíduos agrícolas como fonte de materiais para a moda ainda está em fase inicial. É fundamental que o sistema seja projetado tendo em mente a ciência, a sustentabilidade ambiental e o impacto social que ele pode ter na vida dos produtores. Com frequência, estamos falando de pequenos produtores e comunidades rurais que não podem ser deixadas de fora da equação.

No futuro, temos que ter em mente as seguintes questões: 

  • Como assegurar que o uso de resíduos agro-industriais na cadeia da moda seja complementar ao sistema alimentar e não agrave a insegurança alimentar? 
  • Como garantir que produtores e produtoras sejam compensados de forma justa e que o verdadeiro custo se reflita no preço das fibras? 
  • Como assegurar que neste processo não sejam extraídos nutrientes essenciais do solo e como engajar produtores para que essa seja uma preocupação compartilhada? 

Convido você a ler o relatório (em inglês) e fazer mais perguntas, para que possamos responde-las em conjunto, enquanto construímos uma nova indústria da moda, baseada em materiais regenerativos. 


Sobre o autor

Por Lakshmi Poti

Lakshmi Poti é gerente sênior do Programa Materiais na Laudes Foundation, responsável pela implementação da estratégia em âmbito global. Lakshmi está focada em potencializar as fontes de investimento, inovação e escala para a transição dos materiais utilizados da indústria da moda rumo à matérias-primas regenerativas e justas.

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