O microfone precisa estar ligado

Luciana Campello

Por Luciana Campello

Recentemente ouvi dizer que uma das frases mais faladas em 2020 tem sido: “você está no mudo”. Ela faz referência às inúmeras reuniões virtuais em razão do trabalho à distância e me fez pensar em quantas vezes nossa voz não é ouvida ainda que estejamos dizendo algo.

Esse exemplo, tão conectado ao momento atual, ilustra também como a linguagem – por meio de afirmações que de tão repetidas se tornam expressões incorporadas por milhões de pessoas no dia a dia – pode nos dizer muito sobre a cultura de uma sociedade. 

Minha atuação na Laudes Foundation tem como foco o combate às desigualdades. E nessa perspectiva, penso nas inúmeras frases frequentemente utilizadas, que indicam que temos um longo caminho a ser percorrido para alcançarmos uma sociedade mais justa e igualitária, com destaque aqui à igualdade de gênero. “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” é um desses exemplos e traz uma importante pista de um problema que foi naturalizado em nosso país. Foram muitas as vezes que ouvi essa citação nos mais diferentes ambientes. 

Anos depois, já atuando no campo dos direitos humanos e justiça de gênero, uma adaptação àquela frase chamou a minha atenção: “em briga de marido e mulher o poder público mete a colher”. Ela era parte de uma campanha sobre o combate à violência doméstica organizada pela Superintendência de Direitos da Mulher (SUDIM/SEASDH) do governo do Estado do Rio de Janeiro.  Mais tarde, novamente a colher aparecia como elemento central numa campanha do Magazine Luiza junto ao Instituto Patrícia Galvão ressaltando a necessidade de falarmos e atuarmos no combate à violência doméstica. Isto é, de metermos a colher.

Infelizmente, a violência de gênero não é restrita às relações familiares, mas está presente também na vida profissional de muitas mulheres. É fato que nós mulheres ganhamos espaço no mundo do trabalho nas últimas décadas. Ainda que de forma muito desigual, atuamos em (quase) todas as áreas. Mas independente do setor, as relações trabalho, de poder e de gênero permanecem muito desafiadoras para nós.  No caso específico do Brasil, é importante ressaltar ainda o marcador racial: aqui as mulheres negras estão em situação de maior vulnerabilidade, dado esse escancarado pela pandemia e historicamente apontado em diversos estudos sobre desigualdades no país. Por isso, ao tratar o assunto, é preciso considerar as interseccionalidades de gênero, raça, classe, idade, orientação sexual, entre outras – e encontrar caminhos para sair do mudo e, novamente metermos a colher.


Essa não é uma realidade unicamente brasileira. O assédio e a violência contra mulher está presente no mundo todo. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), entidade chave e parceira da Laudes Foundation, lançou em 2019 a Convenção 190 com o objetivo de engajar formalmente o maior número possível de países na missão de erradicar qualquer forma de violência e assédio no mundo do trabalho. O texto da Convenção também traz novas perspectivas sobre o tema: amplia a percepção do assédio como prática não apenas recorrente, mas podendo também ser pontual, leva em conta o histórico da violência doméstica, joga luz à violência psicológica, reafirma a centralidade do gênero no problema, aborda outras variáveis importantes como raça, classe social e idade e inclui a visão sobre o trabalho informal no campo e nas cidades.


Se por um lado a Convenção é uma boa notícia e representa um avanço na compreensão do tema, por outro ainda precisamos desnaturalizar a questão e abordar o tema com os diferentes envolvidos nas causas e nas soluções. Inspirada pela Convenção, a Laudes Foundation vem atuando para influenciar, responsabilizar e fomentar o debate junto as indústrias e negócios em geral.  E para compreender melhor as dinâmicas, desafios e prioridades deste tema na sociedade brasileira, a Laudes desenvolveu uma pesquisa em conjunto com o Instituto Patrícia Galvão e o Instituto Locomotiva, com o objetivo de entender e mapear como as mulheres percebem o assédio no ambiente profissional. 


A primeira fase qualitativa do estudo aconteceu entre os meses de agosto e setembro de 2020 e, como não poderia deixar de ser, os primeiros resultados já trazem consigo os impactos gerados pela pandemia do Covid-19, que agravou imensamente a sobrecarga de trabalho para elas. Os achados das primeiras entrevistas e grupos focais confirmaram, a partir de falas e opiniões em primeira pessoa, que a maioria delas já sofreu algum tipo de violência ou assédio nesse ambiente e que essa possibilidade está presente ao longo de toda a vida profissional, em especial no período de entrada na maternidade. Um outro ponto que apareceu de maneira muito central nas falas é a importância do trabalho, não só do ponto de vista econômico, mas mobilizando e influenciando diversos aspectos simbólicos da vida – da realização pessoal e econômica à sensação de autonomia, liberdade e independência. Nessa perspectiva, é unânime, segundo o estudo, a noção de que a inserção da mulher no mercado de trabalho é fundamental e vem se ampliando. 


A segunda etapa quantitativa da pesquisa, lançada em dezembro, traz uma maior compreensão sobre as percepções da população em relação à violência e as experiências de assédio e constrangimento vividas pelas trabalhadoras no Brasil.

 

"Equidade de gênero no mundo trabalho passa certamente por mais mulheres tendo mais oportunidades e acesso e ocupando espaços, inclusive de liderança; passa por salários equivalentes entre trabalhadoras e trabalhadores; passa também, e antes de tudo, por relações de respeito e dignidade como direito básico, independente de hierarquia."

Enquanto esse direito fundamental não for garantido para todas é preciso que sigamos mobilizando e fomentando movimentos de mulheres, influenciando as diversas instâncias de poder – públicas e privadas, e incentivando mudanças no setor privado para que este seja cada vez mais corresponsável na busca por um mundo mais justo, livre e equânime. Precisamos seguir metendo a colher,  sair do mudo e ter a certeza de que o microfone está ligado.


Sobre o autor

Por Luciana Campello

Luciana Campello é gerente do Programa Diretos e Trabalho na Laudes Foundation.

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